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Moçambique Monitor de Conflitos Atualização: 14 de janeiro de 2026

14 January 2026

Also available in English

MCM-8-Dec-11

Em números

Dados principais da província de Cabo Delgado (8 de dezembro de 2025 a 11 de janeiro de 2026)

  • Pelo menos 17 eventos de violência política (2.298 no total desde 1 de outubro de 2017)

  • Pelo menos 13 fatalidades totais reportadas de violência política (6.418 desde 1 de outubro de 2017)

  • Pelo menos 3 fatalidades de civis reportadas (2.709 desde 1 de outubro de 2017)

  • Pelo menos 11 incidentes de violência política envolvendo o EIM em Moçambique (2.133 desde 1 de outubro de 2017)

A violência política no norte de Moçambique diminuiu significativamente no final de 2025, com dezembro a ser o auge da estação das chuvas, o que limita a mobilidade tanto do Estado Islâmico em Moçambique (EIM) quanto das forças estatais e, consequentemente, a sua capacidade de realizar operações. Apesar deste declínio sazonal, as forças estatais, tanto moçambicanas como ruandesas, entraram em confronto com o EIM ao longo da costa e no interior, indicando uma nova seriedade no confronto com o grupo. A violência em Nampula, relacionada com operações estatais contra mineiros, e no distrito de Metuge, em Cabo Delgado, relacionada com o surto de cólera, servem como lembretes de que, longe do conflito, o tecido social do norte de Moçambique permanece frágil. 

Resumo da situação

Confrontos na costa

O EIM permaneceu ativo na costa dos distritos de Macomia, Mocímboa da Praia e Palma durante dezembro e janeiro. É evidente que o EIM ainda é capaz de se deslocar ao longo da costa, apesar do reforço das patrulhas marítimas tanto pelas Forças de Defesa do Ruanda (RDF) quanto pelas Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM). O Estado Islâmico (EI) afirmou que militantes entraram em confronto com uma patrulha naval das RDF em Nabaje, 17 quilómetros a sul da vila sede de Mocímboa da Praia. De acordo com uma fonte, eles estavam na área a comprar suprimentos aos habitantes locais. Não está claro se os combatentes do EIM estavam no mar durante o confronto.

Nos dias seguintes, ocorreram escaramuças na costa de Macomia. De acordo com o EI, militantes entraram em confronto com uma patrulha naval das FADM a 23 de dezembro, perto de Quiterajo. Tal como em Nabaje, não está claro se os militantes estavam no mar durante o confronto. No dia seguinte, o EIM matou cinco soldados das RDF num confronto em Cogolo, 20 km mais a sul. O EI divulgou imagens dos soldados e do armamento que tinha sido apreendido. No dia seguinte, um grande destacamento de soldados das FADM chegou por mar a Pangane. De acordo com fontes na área, alguns membros do destacamento não sabiam ao certo onde estavam ou qual era a sua missão. Alguns membros do destacamento seguiram para a vila de Macomia, enquanto outros teriam  ido para Quiterajo. Os combates recomeçaram a 29 de dezembro, quando os residentes de Mucojo ouviram explosões vindas do norte em direção a Cogolo. 

A 3 de janeiro, militantes do EIM chegaram a um local conhecido como Loque, perto de Olumbe, na costa de Palma, onde passaram a noite, tendo comprado mantimentos como sabão, arroz e farinha num mercado próximo. De acordo com uma fonte local, não pagaram o valor total e partiram na manhã seguinte. 

O EIM regressa à N380

A 9 de janeiro, o EIM atacou um veículo militar, que segundo uma fonte no local seria das  RDF, com um engenho explosivo na estrada N380 entre Chai e Quinto Congresso, no distrito de Macomia. Não está claro o grau dos danos causados ao veículo, nem se houve vítimas. No mesmo trecho da estrada, no mesmo dia, uma coluna de veículos comerciais foi emboscada. Os veículos ficaram danificados, mas não houve vítimas entre os civis. Num vídeo gravado no local, era possível ouvir tiros à distância. De acordo com uma fonte, os combates, provavelmente com as RDF, duraram das 9h até ao final da tarde. O veículo militar atingido provavelmente estava a escoltar uma coluna comercial. Apesar do tiroteio, o EIM parece ter permanecido na área. Numa declaração de 12 de janeiro, o EI afirmou ter capturado e morto um “membro da milícia”, provavelmente da Força Local, em 10 de janeiro, perto de Chai. Ainda não foi emitida qualquer reivindicação pelo engenho explosivo ou pelo ataque à coluna. 

Manifestações eclodem na vila de Macomia após a prisão de um empresário

Dois dias de manifestações na vila sede de Macomia foram desencadeados pela detenção do empresário Ali Maridade na noite de 9 de janeiro. De acordo com uma fonte, ele foi detido por agentes da Unidade de Intervenção Rápida da polícia e do Serviço Nacional de Investigação Criminal. Maridade é um comerciante da vila que viaja muito a trabalho pela província e pela Tanzânia, de acordo com fontes locais. A 10 de janeiro, os manifestantes bloquearam estradas na vila, levando as Forças de Defesa e Segurança (FDS) a disparar para dispersar a multidão. Um posto policial foi incendiado durante os distúrbios desse dia. No dia seguinte, as FDS restauraram a ordem, abrindo fogo novamente, segundo uma fonte. Fontes indicam que nenhum civil foi morto nos tiroteios em nenhum dos dois dias. Ainda não se sabe por que Maridade foi preso. No entanto, pequenos empresários ativos na província são frequentemente suspeitos pelas autoridades de estarem de alguma forma ligados à insurgência. 

O incidente evidencia a persistente relação precária entre as comunidades e as FDS em Cabo Delgado. Duas semanas antes das manifestações em Macomia, um vídeo que circulou mostrava um homem em Mocímboa da Praia queixando-se de ter sido agredido por soldados das FADM e alegando que estes lhe roubaram mais de 9.000 meticais. Ele também se queixou da incapacidade deles de responder eficazmente à insurgência. O incidente foi confirmado por uma fonte na vila. 

Militantes movem-se pelos distritos de Mocímboa da Praia, Nangade e Mueda

Pequenos grupos de combatentes do EIM estiveram ativos nos distritos a norte do rio Messalo. O EI afirmou ter morto um civil perto de Diaca, no distrito de Mocímboa da Praia, a 22 de dezembro, e outro na aldeia de Magaia, a sul, no distrito de Muidumbe, no mesmo dia. 

No distrito de Nangade, fontes locais afirmam que, a 10 de dezembro, o EIM atacou a aldeia de Nambedo, 8 km a leste da vila sede de Nangade. Um civil ficou ferido no ataque. O próprio EI reivindicou tanto o ataque como o assassinato de um civil perto da aldeia dois dias depois. 

Fontes locais acreditam que a recente presença do EIM em Nangade foi motivada pela necessidade de escoltar militantes da Tanzânia até o norte de Moçambique. Quase duas semanas após o ataque a Nambedo, por volta de 23 de dezembro, militantes seguiram para oeste em direção a Namatil, no distrito de Mueda, que, segundo fontes locais, fica próximo a pontos de passagem da Tanzânia. Três dias depois, militantes do EIM, provavelmente o mesmo grupo, montaram um bloqueio de estrada entre Mueda e a passagem fronteiriça de Negomano. Vários veículos foram parados para exigir dinheiro e outros objetos de valor dos passageiros, incluindo um autocarro da empresa King Masai. Por coincidência, na primeira semana de janeiro, um autocarro da King Masai que fazia a rota de Nampula a Dar es Salaam foi parado na capital da Tanzânia e encontrado com fardos de maconha. 

Fontes locais associaram a atividade recente no distrito de Nangade aos esforços para trazer combatentes seniores da Tanzânia. As ligações do EIM com a Tanzânia são de longa data. A Tanzânia tem envidado esforços significativos há muitos anos para minar as redes de apoio do EIM dentro das suas fronteiras e mantém uma presença militar em Moçambique. No entanto, as divisões políticas nas forças armadas que surgiram após as eleições de outubro — confirmadas pelo ex-primeiro-ministro do partido no poder, Joseph Warioba, numa entrevista no final de dezembro — estão provavelmente a minar a capacidade da Tanzânia de apoiar os esforços de contrainsurgência de Moçambique.

Além da insurgência, a cólera e a mineração provocam violência

Os incidentes no distrito de Metuge, em Cabo Delgado, e na província de Nampula evidenciam a fragilidade das comunidades no norte de Moçambique. Na aldeia de Nanlia, no distrito de Metuge, em 12 de dezembro, moradores incendiaram casas de funcionários locais, acusando-os de espalhar a epidemia de cólera que afetou a aldeia. Na semana seguinte, em 17 de dezembro, no distrito de Eráti, em Nampula, cidadãos também atacaram as casas de funcionários na aldeia de Megoro, ao sul de Alua, novamente por suspeitas de que estariam a espalhar a doença. Tais ataques não são incomuns e foram registrados no norte de Moçambique em 1999, 2001, 2009, 2019, 2020 e, mais recentemente, em 2023. 

Mais a sul, no distrito de Mogovolas, em Nampula, a polícia afirmou ter matado sete pessoas num confronto com uma milícia Naparama e membros do partido Anamola por volta de 29 de dezembro. Esta afirmação foi contestada pela organização da sociedade civil local Kóxukhuro, que alega que a polícia matou 38 mineiros numa operação que visava a mineração artesanal e de pequena escala no distrito. De acordo com o Centro para o Desenvolvimento e os Direitos Humanos, a rádio local noticiou que a polícia matou até 13 mineiros. É altamente improvável que os membros do Anamola, um partido liderado por um pastor cristão, colaborassem de alguma forma com os Naparama, que tem raízes espiritualistas tradicionais. 

Foco: Intensificam-se os confrontos entre o EIM e as RDF

Apesar da redução da atividade geral do EIM, normal em dezembro devido às chuvas, a virada do ano viu vários confrontos significativos entre o EIM e as RDF. Tanto as RDF como as FADM lutam para controlar a costa de Macomia, enquanto o EIM permanece ativo mais para o interior, particularmente nos distritos de Macomia e Muidumbe. 

A atividade das RDF em 2025 permaneceu inferior à de 2024. No entanto, uma concentração de atividades nos distritos de Macomia, Mocímboa da Praia e Muidumbe no segundo semestre de 2025 e em 2026 indica uma nova determinação em neutralizar o EIM, possivelmente relacionada com o levantamento da força maior no projeto de gás natural liquefeito liderado pela TotalEnergies no distrito de Palma, em outubro. No entanto, o EIM não recuou. Apesar dos esforços das RDF na costa de Macomia, incluindo a morte de pelo menos 35 militantes do EIM por volta de 30 de novembro perto da aldeia de Cogolo e o estabelecimento de um posto avançado de combate das RDF em Pangane, os combatentes do EIM permaneceram ativos na área. A 24 de dezembro, o grupo matou cinco soldados das RDF em Cogolo. O ataque com um engenho explosivo improvisado a um veículo ruandês na N380 a 9 de janeiro ocorreu apenas um mês após os confrontos com o EIM mais a norte na mesma estrada, a 5 e 6 de dezembro, quando as forças ruandesas responderam a uma emboscada do EIM a uma coluna comercial. No passado, as RDF mostraram-se visivelmente relutantes em enfrentar o EIM nessa estrada. Tanto as FADM como as RDF continuam a ter dificuldades em controlar a costa de Macomia, como se pode ver nos esforços mal-sucedidos das FADM para enviar reforços para a área. 

As tendências de conflitos passados em Cabo Delgado sugerem que a insurgência voltará a aumentar gradualmente com a diminuição das chuvas.  Os acontecimentos em dezembro e janeiro sugerem que, embora as RDF estejam cada vez mais dispostas a enfrentar o EIM, os próprios insurgentes não estão a recuar. O conflito de baixo nível, particularmente nos distritos de Macomia, Muidumbe e Mocímboa da Praia, continuará a moldar a vida das pessoas em Cabo Delgado em 2026. 

Resumo

Capetine alerta que um orçamento de defesa insuficiente torna Moçambique vulnerável

O tenente-general reformado Bertolino Capetine alertou que Moçambique continua vulnerável à insurgência a outras ameaças à segurança devido a fragilidades estruturais nas suas capacidades de defesa e ao investimento insuficiente na segurança nacional. Ao discursar no Diálogo Nacional Inclusivo sobre Defesa e Segurança no mês passado, Capetine criticou a baixa dotação orçamental para a defesa. Argumentou que a despesa prevista com a defesa, de cerca de 1% do orçamento nacional até 2029, deixará o Estado mal equipado para proteger o seu território e os seus cidadãos.

Capetine afirmou ainda que este subinvestimento resultou em equipamento militar inadequado e numa capacidade limitada para responder a ameaças internas e externas, particularmente em Cabo Delgado, onde a violência insurgente persiste. Salientou também as lacunas no planeamento estratégico, na inteligência, na defesa marítima e na cibersegurança, descrevendo a falta de uma estratégia coerente a longo prazo como prejudicial tanto para a segurança nacional como para a confiança dos investidores.

Receitas do gás natural elevam o valor do fundo soberano de Moçambique para 116 milhões de dólares

O Fundo Soberano de Moçambique viu o seu valor de mercado aumentar quase 6% desde que iniciou as suas operações, atingindo 116,41 milhões de dólares americanos após uma injeção de capital de 6,1 milhões de dólares em 6 de janeiro de 2026, informou o Banco de Moçambique. O fundo foi inicialmente capitalizado em dezembro de 2025 com 109,9 milhões de dólares provenientes das receitas do gás natural, em grande parte de projetos de GNL em Cabo Delgado. O banco central gere o fundo ao abrigo de um quadro de investimento definido legalmente. O fundo tem como objetivo poupar as receitas dos recursos para as gerações futuras e estabilizar o orçamento nacional face à volatilidade dos preços das matérias-primas. As salvaguardas incluem controlos internos e auditorias externas independentes.

    Country
    Mozambique
    Region
    Africa
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